domingo, 27 de junho de 2010

Quando o nazismo matou um craque


o assasinato de Matthias Sindelar pelo führer, o Hitler.

Matthias Sindelar. Um nome simples para aqueles nomes confusos austríacos, mas no futebol, não era simples. Longe disso. Era um monstro.

Poucos sabem, mas a seleção austríaca era a grande potência do mundo todo nos anos 1930; era chamada de Wonderteam. Havia alguns grandes jogadores, como o artilheiro Bican, a muralha Raftl, e o zagueiro Schmaus, mas nenhum chegava aos pés do cerebral meia-atacante Sindelar.

Rápido, habilidoso, chutava bem com as duas pernas, e era disputado já por alguns clubes europeus, mas não. Preferiu ficar no seu clube de coração, o Austria Viena, por qual defendeu 13 anos de sua vida, de 1926 a 1939.

O "homem de papel", como era conhecido devido à sua elasticidade, ganhou duas Copas Mitropa, a precursora da Liga dos Campeões, e também um campeonato austríaco. Mas foi na seleção austríaca que ganhou renome internacional. De 1930 a 1933, a seleção austríaca disputou 16 partidas, e atingiu a bagatela de 13 vitórias, 2 empates e 1 derrota, para Inglaterra, saindo aplaudida por quase ter vencido o jogo. Além disso, marcara 52 gols, uma média de mais de 3 gols por partida.

Na Copa de 1934, Sindelar jogou a primeira partida contra a França, e logo anotou o seu. Depois, nas quartas de finais, fez de tudo, dando diversos passes que poderiam ser gol. Não anotou o seu, mas foi o melhor em campo contra a Hungria. Mas a Áustria acabou eliminada quando enfrentou a anfitriã Itália (isso mesmo, a que jogava, e se perdesse, morreria). Isso, aliado à marcação desleal de Monti sobre Sindelar, eliminou as chances austríacas no mundial. Tanto que Sindelar nem jogou na disputa de terceiro lugar, pois saiu lesionado.

Então, Sindelar continuou jogando seu futebol alegre e vistoso, pelo seu time Austria Viena. Até que chegaram as eliminatórias para o mundial de 1938, a ser disputado na França. Sindelar participou das eliminatórias pelo Wonderteam, e como era de se esperar, logo a Áustria esteve classificada.

Mas é aí que começa tudo. Se alguns sabem de história, já devem saber o que aconteceu no dia 13 de março de 1938; para os que não sabem, um breve resumo: a Alemanha, vizinha da Áustria, vivia sob um regime ditatorial de Adolf Hitler. O führer convidou o líder do partido nazista austríaco, Arthur Seyss-Inquart, para um jantar na casa dele. Então os dois trocaram algumas ideias, se tornaram amigos, até que no dia 13 de março de 1938, Seyss-Inquart anunciou a unificação da Áustria com a Alemanha. Então, a economia alemã melhorou, a vida melhorou, e um país a menos no mundo...

No entanto, isso também trouxe mudanças no futebol. Se tudo fosse simples, os craques austríacos jogariam sem problemas na seleção alemã. E isso até que aconteceu em parte, porque Raftl, Pesser, Mock, Hahnemann e Mock, antigos integrantes do Wonderteam, foram para a seleção alemã, a Nationaelf. Mas e Matthias Sindelar?

Sindelar era um homem de ouro. Não aceitava o regime ridículo, o preconceito obrigatório contra os negros, homossexuais, e, principalmente, judeus - até porque Sindelar era um. Como se não bastasse ser judeu, ainda era social-democrata. Oh, os nazistas ouviram isso. Matar? Estraçalhar? Trabalhos forçados? Depende. Se ele aceitasse defender a sua nova pátria, isso logo se esqueceria, e ele se tornaria um alemão legítimo. Mas Sindelar não era nazista! Odiava isso, e se recusou a defender essa seleção ridícula.

Hitler ficou louco; como pode, um jogador de futebol, profissão tão ridícula, não aceitar seu poder? Irado, acionou a Gestapo. Começaram a investigá-lo, e descobriram, também, uma partida entre Alemanha x Áustria, para comemorar a unificação, em abril de 1938, na qual Sindelar jogou por todos, foi o melhor em campo, e ao fazer um gol se dirigiu às tribunas onde estavam Adolf Hitler e seus comparsas. Começou a dançar, desrespeitando o ditador no meio dos alemães.

E também não aceitava as convocações, como foi dito antes. Com isso, a Gestapo, depois de muita investigação, decidiu dar um fim nele, com a justificativa de mau-exemplo para o povo austríaco - afinal, ele era um ídolo. Para ninguém desconfiar, esperariam 6 meses depois do fim da Copa do Mundo.

E então, Sindelar e sua namorada, coitada, foram mortos a pedido de Hitler. Intoxicados por monóxido de carbono, em seu próprio apartamento. E o homem que desafiou o nazismo estava morto. Perdera uma batalha, como se tivesse perdido para um adversário mais forte que ele. Como jogador, não bastava só um para lhe marcar. Eram preciso vários para tentar ter alguma chance com ele. O nazismo era exatamente o que podia vencê-lo. Vários jogadores, fortes, que usavam armas desleais dentro de jogo. E, abatido em seu quarto, enquanto estava dormindo, não teve tempo de usar sua agilidade, e sair correndo. Ou mesmo driblar os generais nazistas - nada disso foi possível.

E o maior jogador dos anos 30 acabara de morrer. Mas a memória dele, suas jogadas, quem o viu, nunca irá esquecê-lo. O maior austríaco de todos os tempos. Matthias Sindelar.

Túmulo de Sindelar, na Áustria. Foi enterrado ao lado de Beethoven. Talvez porque Sindelar era o Beethoven do futebol.



Placa em sua homenagem, na sua antiga casa na Áustria. Tradução, de acordo com o Google Translator e com minhas correções:

"Nesta casa, morreu no dia de 23 de janeiro de 1939, em circunstâncias pouco claras, o Rei do futebol de Viena, Matthias Sindelar, apelidado de "O homem de papel". Sindelar, nascido em 10 de fevereiro de 1903, em Kozlau (hoje Kozlov, na República Checa), foi durante anos o coração e a cabeça do Austria Viena e do legendário Wonderteam austríaco.

Dedicado pelo Austria Viena, da Áustria, em maio de 2008"

Via Cristiano Soares.

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